Ricardo Dip
Continuando nossa caminhada que vai da ideia de «saber em geral» até à de «saber jurisprudencial», cuidemos agora de mais outros três pontos, que dizem respeito à distinção entre:
• saber e conhecer,
• saber e pensar, e
• Sabedoria divina, sabedoria humana e sabedoria do mundo.
Primeira distinção: entre saber e conhecer. Saber não é o mesmo que conhecer: saber no coincide con conocer (Tejada, Tratado de filosofía del derecho.o.c., p. 13). Não é tarefa simples distinguir esses conceitos, porque a linguagem comum os acerca, não poucas vezes, ao modo mesmo de equivalentes, de palavras sinônimas. Outras vezes, parece, no usus loquendi, que saber é menos do que conhecer: perguntam-nos se conhecemos determinada pessoa, e respondemos saber quem seja ela, mas que não a conhecemos (talvez, aqui, com a elipse do advérbio «pessoalmente»); ou, ao revés, dizemos conhecê-la de vista, que é quase o mesmo que saber quem é. Encontra-se nisso tudo até um complicador, pois há mesmo quem diga ser indefinível o conhecimento: “Qu’est-ce que connaître? Question difficile, car connaître est un fait premier, indéfinissable…” (Georges Van Riet, L’épistemologie thomiste, Institut Supérieur de Philosophie, Louvain, 1946, p. 197).
Para Elías de Tejada, entretanto e com bons fundamentos, o conhecimento especializa-se no gênero do saber, porque o conhecimento é sempre racional e exclusivo do homem, ao passo em que “el saber abarca ámbito mucho más amplio”, nele abrangendo-se a totalidade dos processos ordenados por meio de regras, ainda que essas regras sejam, e o são muitas vezes, “ignoradas por aquellos que las practican, aunque inconsciente y forzosamente las cumplan, puesto que las perciben” (o.c., p. 13). Assim, todo conhecimento é saber, mas nem todo saber é conhecimento, porque o conhecimento é sempre um saber racional, e o saber pode ser não-racional (p.ex., o saber revelado, que é não-racional quanto a seu conteúdo, mas acolhido pela razão à conta da autoridade de quem o ensina).
Segunda distinção: entre saber e pensar. Saber tampouco é o mesmo que pensar. Pensar é um movimento intelectual, em que se acercam objetos, consideram-se, meditam-se, numa relacionação dialética que pode abarcar todas as coisas –incluídos os entes de razão. Não é uma situação estática, como, relativamente, é-o o saber, mas o exercício da liberdade do intelecto, que pode expandir-se, de maneira autônoma, às mais amplas fronteiras da realidade plena, dirigindo-se à percepção do que é verdadeiro. Ainda o que se sabe está submetido à liberdade do pensamento que o rememora, reexamina, põe-no à prova dialética, distingue, aprofunda-o. Assim, o pensar “recuerda y pondera, selecciona conocimientos y experiencias, organiza engranajes lógicos y los controla” (José María de Alejandro, Gnoseología, ed. BAC, Madrid, 1969, p. 85).
Terceira distinção: entre Sabedoria divina, sabedoria humana e sabedoria do mundo. A sabedoria –em todo seu gênero– distingue-se das demais ciências nisto que versa sobre os princípios (S.Tomás de Aquino, S.th., I-II, 57, 2, ad1 e ad4), não somente para deles extrair conclusões, senão que para avaliá-los e defendê-los (S.th., I, 1, 8; I-II, 53, 2, ad1 e ad2). E bem por isso, a sabedoria é o mais elevado dos hábitos intelectuais, pois julga de todas as coisas e ordena-as considerando causas altíssimas (S.th., I-II, 57, 2; I-II, 66, 5).
A existência mesma de Deus implica tenha o mesmo Deus ciência perfeitíssima −ciência perfeitíssima de que dão notícia as Escrituras: p.ex., I Samuel 2,3; Salmo 135, 5; S.Paulo, Romanos, 11,33. Foi o que também se declarou na Constituição dogmática De fide catholica, do I Concílio Vaticano: “…intellectu ac voluntate omnique perfectione infinitum” (Denzinger, Enchiridium symbolorum, § 1.782; cita-se pela ed. Herder, Barcelona, 1955). Ciência perfeitíssima com que Deus tem conhecimento de si próprio (S.Paulo, I Coríntios, 2, 10-11) e de todas as coisas criadas (Salmo 147, 45), das mínimas delas (S.Mateus, 7, 25-30) às que concernem aos homens (salmo 139, 1-6), incluídos os pecados (Gênesis, 6,5) e os segredos de seus corações (S.Paulo, Romanos, 8,27); tanto o presente, quanto o futuro (Daniel, 13, 42), porque essa ciência de Deus é a causa –primeira, formal exemplar, diretiva e eficiente –de todas as coisas (cf., por muitos, Réginald Garrigou-Lagrange, La providencia y la confianza en Dios, tradução castelhana do Pe. Jorge de Riezu, ed. Desclée de Brouwer, Buenos Aires, 1943, p. 135 et sqq.; Antonio Royo Marín, Dios y su obra, ed. BAC, Madrid, 1963, p. 122 et sqq.; Ludwig Ott, Manual de teología dogmática, ed. Herder, Barcelona,1968, p. 88 et sqq.).
Há, pois, em Deus, um conhecimento perfeitissímo –in Deo perfectissime est scientia (S.th., I, 14, 1)– que é a causa de todas as coisas (“Deus não conhece as criaturas todas, espirituais e corporais, porque elas existem, senão que elas existem porque Deus as conhece” −S.Agostinho. De trinitate, XV, 13; tradução livre), e essa ciência infinita, a que se dá o nome de sabedoria divina, é a mesma substância de Deus (intelligere Deus es eius substantia – S.Th., I, 14, 4, sed contra), sabedoria de Deus que é sempre especulativa, embora nem sempre apenas especulativa, admitindo-se possa ser simultaneamente especulativa e prática (S.th., I, 14, 16), ao ordenar todas as coisas a seus fins (sapientia disponens), além de, já agora com alguma impropriedade, falar-se numa sabedoria reitora (sapientia gubernans) que consiste na providência de Deus –ou governo do mundo (Ott, o.c., p. 89).
Diversa é a sabedoria humana, pois, por mais esforços façamos, disse Garrigou-Lagrange, “não conseguiremos ver as coisas espirituais e divinas, senão mediante seu reflexo nas coisas materiais” (o.c., p. 131), porque a sabedoria dos homens émera participação da sabedoria divina: “a sabedoria com que formalmente somos sábios é certa participação da sabedoria divina” (participatio quædam divinæ sapientiæ − S.th., II-II, 23, 2, ad2). Por isso, ainda que se possa, de algum modo, chamar-se sábio aquele que recorra às causas mais elevadas de uma ciência particular, de tal sorte que se admita dizer-se sábio o homem prudente (S.th., I, 1, 6), propriamente sábio será o homem que estude a causa absolutamente primeira de todas as coisas, de onde segue afirmar-se que a teologia é a sapientia per excellentiam (cf. Matthias Josef Scheenen, Los misterios del cristianismo, tradução castelhana de Antonio Sancho. Ed. Herder, Barcelona, 1957, p. 856).
Quanto à sabedoria do mundo –que S.Paulo acusou de ser loucura ou necedade aos olhos de Deus (sapientia enim huius mundi, stultitia est apud Deum −I Coríntios, 3,19)–, é ela a que aprecia a vida humana e à qual vida se acomoda pela fruição dos bens temporais (sejam os internos, do corpo: saúde, ou do espírito: a ciência; sejam os externos: as riquezas, a fama, as honras, o poder), apartando-se da lição do mesmo Apóstolo S.Paulo: “Se alguém quer ser sábio, faça-se néscio aos olhos do mundo” (I Coríntios, 3,18). Não é demais recordar aqui esta passagem de Jesus Cristo: “Quid enim proderit homini, si lucretur mundum totum et detrimentum animæ suæ faciat?” (S.Marcos, 8. 36).
