Lições de lógica para juristas (parte 8): breve referência histórica sobre a lógica tradicional e a logística

                                                                                   Ricardo Dip

            Foi na Grécia antiga que teve início a história da lógica, ou seja, a história das meditações metódicas sobre o raciocínio. Veja-se o que, a este propósito, disse Józef Maria Bocheński, em sua Historia de la lógica formal

•  traduz-se livremente: “(…) [essa História] começa na Europa no séc. IV a.C.; e na Índia, ao redor do séc. I de nossa Era. Com anterioridade a essas datas, existe tanto na Grécia, quanto na Índia e na China, talvez também em outros países, algo assim como uma Pré-História da Lógica, sendo um completo erro falar de uma ‘Lógica dos Upanishads’ ou de uma ‘Lógica dos Pitagóricos’. Certo sendo que os pensadores desses círculos tenham formulado também conclusões, a Lógica não consiste, contudo, em raciocinar, mas na investigação do raciocínio. Essas investigações não aparecem seguramente com anterioridade a Platão e o Nyāya; em resumo, antes desses autores encontramos certas regras canônicas da discussão fixadas por força do uso, mas falta completamente una crítica e uma análise dessas regras” (p. 20-21)). [O mesmo autor dirá: “(…) a história da Lógica formal começa propriamente com o Nyāya-sutra (redação do séc. II d.C.) -p. 432].

                Sem desprezar a importância do período cosmológico dos pressocráticos para o surgimento da ciência lógica (de modo especial, com a dialética eleática: Parmênides e Zenão −o fundador da dialética), a relevância de Sócrates (“transición hacia Aristóteles”, disse José María de Alejandro) e o vulto da arte do diálogo (ou seja, dialética) de Platão, é, contudo, “el genio de Aristóteles el que da una forma sistemática y definitiva a la lógica” (de Alejandro).

            Seguindo logo as passadas de Aristóteles, vêm os comentários de seu discípulo Teofrasto e, depois, Euclides de Mégara e seus sucessores da Escola megárico-estoica, a que se remonta a antinomia de Eubúlides ou argumento do mentiroso.

            Dando-se um salto no tempo, vamos encontrar a lógica medieval, em que despontam, primeiro, os nomes de Boécio e de Porfírio, e, adiante, inter plures, na chamada lógica escolástica, podem alistar-se Pedro Abelardo, S. Alberto Magno, S.Tomás de Aquino, Duns Scoto, Guilherme de Occam, Adam de Petit-Pont (o Parvipontano), Gilbert de la Porée, Jean Buridan, Paolo Venetus e Pedro Hispano.

            A Idade moderna é o tempo do surgimento da lógica matemática −ou logística−, o que não impediu a continuidade das meditações reportáveis à lógica clássica iniciada por Aristóteles.

            Para dizer algo sobre a história brasileira do estudo da lógica tradicional, indiquemos, brevitatis causa, apenas três nomes: Charles Sentroul (belga, embora, mas autor de um Tratado de lógica influente na formação de muitos pensadores brasileiros), Goffredo da Silva Telles Júnior, com seu Tratado da consequência,  e, especialmente, Leonardo Van Acker.

            Denomina-se logística um novo método de apresentação  de sistemas que interessam às ciências, um método novo que nasceu com a matemática; por isso há quem fale em lógica matemática, ao lado de outras suas designações: lógica moderna, lógica simbólica, álgebra lógica, algoritimia lógica.

            A logística é uma arte, enfim, que mais se dedica à expressão formal e, especialmente, ideográfica dos conceitos, do que diretamente a estes. Tem ela por precursores Ramon Llull ou Raimundo Lúlio (com sua célebre Ars magna), Leibniz (com a Ars combinatoria), William Hamilton, George Boole e William Stanley Jevons, este último, inventor da primeira máquina para a resolução de problemas lógicos.  Entre seus principais cultores contam-se Louis Couturat, Augustus de Morgan, Bertrand Russel, Friedrich Gottlob Frege, George Edward Moore, Giuseppe Peano (criador da passigrafia, uma escrita lógica de caráter universal), Alfred North Whitehead e Charles Sanders Peirce.

            Da lógica tradicional ou clássica diferencia-se a logística ao dotar-se de grande rigor formal e apoiar-se na estável e uniforme expressão matemática, avantajando-se, neste ponto, sobre a lógica tradicional, porque esta depende da dinâmica do usus loquendi, ou seja, está sujeita aos diversos significados de um mesmo vocábulo −tantas vezes suscetível de equivocidades, de analogias e de variações no tempo.

            Mas, como fez ver José María de Alejandro, a logística, é uma continuação da lógica clássica:

•        “La Logística no alcanza, es evidente, todos los órdenes del pensamiento y del ser, pero es un control formal de los procesos mentales, particularmente los deductivos. La Lógica como ciencia tiene asimismo sus limitaciones, pero parte del ser; la cuantificación mental nace de la cuantificación del ser, y el ser es la horma de todos los análisis lógicos”.

            A logística, embora seja um prosseguimento da lógica tradicional, é bastante alheia de seu espírito (Jean Tricot) e, sem negar sua importância para o desenvolvimento das ciências, é fato que a logística se acomoda mal na zona dos saberes que têm de lidar com essências (ou seja, saberes que operam com signos dotados de sentido eidético −assim disse Bochénski, in Los métodos actuales del pensamiento).