Lições de lógica para juristas (parte 13)

                                                                     Ricardo Dip

            A linguagem: o termo verbal, signo e símbolo

            Tal ficou visto, a linguagem −aqui, tomada como o conjunto das palavras orais− simboliza as afecções da alma (Aristóteles), ou, em outros termos, simboliza os pensamentos, os sentimentos, os desejos e os propósitos humanos.

            É certamente natural a capacidade de expressão e de comunicação dos homens, como resulta da conjunção de sua racionalidade com o próprio de sua sociabilidade (cf. de Alejandro). Os homens, pois, são, naturalmente expressivos e comunicativos, e a linguagem, que tem múltiplas funções −incluindo a de exprimir emoções (cf. Irving Copy, Introducción a la lógica). Não seria concebível a vida social e política dos homens sem que seus pensamentos, mandatos, intenções, desejos, sentimentos, et reliqua, não se traduzissem de modo exterior por um conjunto de signos sensíveis, tal o é a linguagem (cf. Sanguineti).

            Mas se é de todo certa a afirmação de ser natural a capacidade humana para exprimir e comunicar as afecções da alma, é já muito discutível se a própria linguagem, é dizer, o resultado dessa capacidade expressiva e comunicativa, é natural ou convencional.

            Para Platão, Pitágoras e os estoicos, a linguagem é inata; diversamente, Aristóteles, Demócrito e Epicuro inclinaram-se no sentido de ser ela convencional. Muitos autores apontam a linguagem como criação divina, diretamente (De Bonald, Joseph de Maistre, Lamennais), ou de maneira indireta, mediante a criação da faculdade humana de falar (Donoso Cortés).

            Assim o observou José María de Alejandro, parece que todas essas orientações têm algo de verdade, e aqui é suficiente considerar a importância da linguagem como instrumento do bem pensar −um organon do pensamento reto.

            Bochenski (Los métodos actuales del pensamiento) destacou uma característica da linguagem contemporânea, dizendo que “tanto a lógica, quanto as ciências da natureza, têm atualmente uma tendência marcada ao pensamento extensional, ao uso de nomes com o só aspecto de sua designação”; ou seja, toma-se a palavra sob o modo designativo (designatum), considerando sua extensão, deixando de lado seu modo significativo, que é o de sua compreensão.

            Isso prejudica a associação dos signos a seus objetos −associação essa que é um dos fins da linguagem (José Valenzuela, Las actividades del lenguage)−, acarretando uma anarquia expressiva e comunicativa (em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, disse a personagem Humpty Dumpty: “Quando eu uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que ela signifique… nem mais nem menos” −it means just what I choose it to mean –neither more nor less). Abre-se, então, espaço para a criação de “palavras vazias de sentido” (cf. Miriam Joseph, Trivium) e para o uso manipulador da linguagem (cf. Francisco Contreras e Diego Poole), pois as palavras ou não são inocentes −"nous n'avons jamais cru que les mots sont inocents"− Michèle-Laure Rassat), ou, se o são, servem, entretanto, “como armas dóciles a quienes saben instrumentalizarlas con astucia” (Fernando Lázaro Carreter, El dardo en la palabra). No fim e ao cabo, o que se põe à mostra é uma fundamental inclinação cética em larga parcela do pensamento contemporâneo.