Ricardo Dip
Tratemos agora, de maneira concisa, da ordem dos saberes −o que é algo segundo em relação à ordem das coisas ou ordem da realidade−, para naquela ordem situar a arte e a ciência lógicas.
Dentre muitos de seus significados, pode entender-se a natureza como um grande sistema da realidade, com múltiplas conexões e diferentes níveis de organização, de modo que há na realidade uma ordem, ou seja, uma unidade na diversidade, uma certa disposição das partes de um todo. Sem a ordem natural não seria possível ciência alguma; a ordem da realidade é um pressuposto indispensável das ciências.
Não cabe, em rigor, uma definição essencial de “ordem”, porque, ao falar-se em unidade na diversidade ou em disposição das partes, já se supõe quanto a esses conceitos a ideia de ordem. O que ocorre é que, para definir “ordem”, teríamos de partir sempre de ideias prévias que já pressupõem a noção de “ordem”. Com efeito, não se pode falar em unidade na diversidade ou de disposição das partes sem que esteja implícita a ideia de relação entre o uno e o diverso e entre a parte e o todo. Mas a relação já supõe a ordem.
Para estremar a ideia de ordem seria necessário conhecer a noção de caos absoluto (vale dizer, a ausência absoluta de ordem), mas esse caos absoluto não é sequer pensável: o caos possível é só o relativo (ou seja: elevado grau de desordem), mas nele há alguma ordem. É interessante pensar que o próprio inferno é um caos apenas relativo, tanto que há hierarquias nos anges maudites e nos castigos (vidē S.Tomás de Aquino, Suma de teologia, I,109, 1 e 2).
Como ficou dito, numa visão realista das coisas, a ordem dos saberes é um posterius à ordem da própria realidade. Disse bem Goffredo Telles Júnior (Filosofia do direito, São Paulo, s.d., tomo 2), que, tanto no mundo físico, quanto no mundo ético, o pensamento é condição da ordem: toda ação ou produção existe, antes de pôr-se em ato, como pensamento de quem age ou produz. Leiamos nesse autor: “O que o simples filósofo sabe é que todo o Universo, desde a primeira causa até o último fim, desde o ínfimo até o máximo dos seres, tudo quanto existe ou pode existir, outra coisa não é senão o efeito de um Pensamento”; e remata: “Aliás, está escrito que, no princípio, era o Verbo”.
Assim, as ciências particulares são saberes de ordens fragmentárias dos saberes, alguns dos quais são teóricos −ou especulativos−, como o são a metafísica, a física, a astronomia, a mineralogia, a biologia, a psicologia racional, a matemática; o fim dessas ciências teóricas é o próprio conhecimento da realidade. Outros dos saberes são práticos −ou normativos−, tendo por fim uma dada operação; alguns deles dizem-se ativos, porque se dirigem à ação, algo imanente (aí se encontram a moral e o direito); outros, produtivos, que se dirigem a algo transitivo e externo, ou seja, a produzir um artefato (p.ex., a carpintaria, a marcenaria, a arquitetura, a arte indumentária, as belas artes, et reliqua).
A lógica é ciência e arte. É ciência teórica e, por isso, ao dizê-la também um arte, o que se quer significar é seu caráter normativo, regulador ou “produtor” do pensamento; daí que ela seja um saber anterior a todas as ciências, uma propedêutica para todos os saberes. Nesse sentido, quando Aristóteles trata, no livro VI da Metafísica, da classificação das ciências, entre estas não se encontra a lógica, pela boa razão de que ela é uma disciplina introdutória ou instrumental de todas as ciências. É a ars artium, a arte das artes, e a ars scientiarum, a arte das ciências.
