Crônica por Rainey Marinho, presidente do IRTDPJBrasil e do ONRTDPJ
Dizem que São Patrício expulsou as serpentes da Irlanda. Que caminhou de ponta a ponta naquela ilha fria, sozinho no começo, acompanhado depois, e que onde pisava o chão ficava limpo. Não de sujeira, de medo. De desordem. De tudo aquilo que rasteja no escuro e morde quando ninguém está olhando.
Não sei se acredito em serpentes literais. Mas acredito na metáfora. E acredito porque, de certa forma, é o que fazemos.
Nós — notários e registradores do Brasil — não carregamos cajados. Carregamos livros, selos, certificados digitais, sistemas que travam na hora errada, prazos que vencem no fim de semana e provimentos que chegam na sexta-feira à noite como se a segunda não existisse. Nosso chão não é uma ilha verde no Atlântico Norte. É um balcão. Às vezes apertado. Às vezes numa cidade que o mapa quase esqueceu.
Mas o trabalho é o mesmo: expulsar as serpentes.
As serpentes da insegurança jurídica. As da fraude. As da irregularidade que, se não registrada, não existe — e, se não existe, não protege ninguém. Nós existimos para que o direito não fique só no papel da lei. Para que ele desça até a escritura, até a certidão, até o registro que transforma promessa em garantia.
Alguém sabe o que isso custa? Não falo de emolumentos. Falo do custo humano. Falo de gente de verdade.
Eu conheço uma tabeliã — não vou dizer o nome nem o estado, porque ela não me pediu para contar essa história, mas preciso contar — que vendeu o carro para pagar o preposto. Não era um carro bom, mas o que ela tinha. O mês não fechou, a arrecadação ficou aquém da folha, e ela teve que escolher entre o transporte próprio e manter a serventia funcionando. Escolheu a serventia. No mês seguinte, ia de carona com a vizinha até o cartório. Abria a porta, atendia, lavrava, registrava, alimentava sistema, respondia ofício, fechava caixa. Voltava de ônibus. Ninguém soube. Ninguém precisou saber. Ela não contou como sacrifício, contou como o que tinha que ser feito.
E conheço um interino. Assumiu serventia vaga no interior, dessas que chegam sem manual de instruções. Sem arquivo organizado, sem sistema implantado, sem internet que prestasse. Ele me ligou uma vez, num domingo, perguntando como fazia para acessar o Justiça Aberta de uma lan house, pois na serventia o sinal caía toda vez que chovia, e chovia muito naquela semana.
Eu ri. Ele também riu. Depois ficamos em silêncio, porque os dois sabiam que não tinha graça nenhuma. Na segunda-feira, ele abriu a porta do cartório no horário. Como sempre.
Essa gente não aparece no jornal. Não dá entrevista. Não tem lobby. Tem balcão. E é do balcão que sai a segurança jurídica deste país. Todos os dias. Sem exceção. Inclusive nos dias em que a vontade é de não ir.
São Patrício era escravo antes de ser santo. Capturado aos 16 anos, levado para a Irlanda à força, trabalhou como pastor durante seis anos antes de fugir. Voltou depois, livre, e escolheu servir justamente a terra que o havia escravizado.
Há nisso algo que me toca. Não a escravidão, evidentemente. Mas a escolha de voltar. De servir o lugar difícil. De não trocar o desconforto pela facilidade.
Quantos de nós poderíamos ter escolhido outra coisa? Uma advocacia tranquila. Um concurso mais glamouroso. Uma profissão que as pessoas entendessem sem precisar de explicação. Mas escolhemos o cartório. Ou o cartório nos escolheu — que no fundo dá no mesmo, porque a delegação é vocação que se aceita, não cargo que se ocupa.
E quem aceita, fica. Fica quando o provimento novo chega. Fica quando o sistema cai e a fila cresce e alguém no balcão levanta a voz porque não entende que o problema não é nosso. Fica quando a Corregedoria bate à porta e o emolumento não paga a conta de luz. Fica porque não sabe fazer outra coisa — ou, pior, porque sabe fazer e ainda assim prefere ficar.
O trevo de São Patrício tem três folhas. Ele usava para explicar a Trindade aos irlandeses que não entendiam a doutrina. Três coisas distintas num só corpo.
Eu fico pensando no que nos mantém de pé. Trinta e sete anos de cartório e eu ainda penso nisso, o que talvez diga algo sobre a pergunta ou sobre mim.
Tem uma fé, primeiro. Não necessariamente religiosa, embora muitos de nós a tenham e ela ajude. Falo de outra coisa. Da convicção meio teimosa e meio irracional, de que lavrar uma escritura importa. De que registrar um título importa. Autenticar uma firma, certificar um fato, dar fé pública a um ato entre duas pessoas que talvez nunca mais se vejam. Tudo isso sustenta alguma coisa. Uma ordem. Um pacto. Algo que, sem nós, viraria contrato de gaveta e palavra ao vento.
E tem uma solidariedade que é difícil de explicar para quem não é da categoria. Nós nos conhecemos. Sabemos o nome dos colegas, os problemas de cada comarca, as dificuldades de cada especialidade. Eu sei quem está passando aperto no interior do Maranhão. Sei quem perdeu preposto em Goiás e está tocando sozinho. Sei quem está respondendo procedimento administrativo por uma bobagem que qualquer um de nós poderia ter cometido. Quando um tomba, os outros sentem. Isso não é corporativismo. É outra coisa. É saber que estamos todos no mesmo barco e que o barco não é grande.
E tem a teimosia. Eu procuro uma palavra melhor e não encontro, porque teimosia é exatamente o que é. Teimosia de abrir o cartório todo dia. De estudar o provimento novo no fim de semana. De adaptar o sistema quando o fornecedor desaparece. De responder o ofício mesmo quando a pergunta não faz sentido. De fazer a coisa certa quando seria muito, muito mais fácil não fazer nada. Provimento 149. Provimento 188. Provimento 202. Provimento 213. Provimento 218 — este dessa semana, ainda quente. Em cada um mais uma exigência, mais um prazo, mais um campo para preencher. E a gente preenche. Reclama, sim. Mas preenche.
Hoje, 17 de março de 2026, enquanto meio mundo brinda com cerveja verde e desfiles em Dublin, eu brindo com café. Provavelmente frio, porque esqueci a caneca no balcão entre um registro e outro — isso acontece mais do que eu gostaria de admitir.
Brindo à categoria mais silenciosa e mais necessária do serviço público brasileiro. Aos que ninguém vê. Aos que não são heróis porque herói aparece no momento extremo e depois some. E nós aparecemos todo dia, inclusive quando ninguém está olhando, inclusive quando o reconhecimento não vem, inclusive quando já estamos cansados e o próximo provimento já está a caminho.
São Patrício tinha fé e um cajado. Nós temos um balcão, um livro e uma teimosia que não tem explicação.
A Irlanda ficou de pé.
O Brasil também vai ficar.
Fonte: IRTDPJ Brasil
