Lições de lógica para juristas (parte 1): o vernáculo “lógica”: etimologia

         Ricardo Dip

Quem se ponha a buscar palavras muito assemelhadas em diferentes línguas, certamente entre elas encontrará algo símile a nosso vernáculo “lógica”. Ensaiemos uma visita a alguns idiomas: ao espanhol, em que se diz lógica; ao francês; logique; ao inglês, logic; ao alemão, Logik; ao italiano, logica; ao sueco, logik; ao polonês, logika; e até mesmo às línguas que não provieram do indoeuropeu, assim, ao húngaro, logika; ao basco, logika; ao estoniano, loogika; ao finlandês, logiikka; ao maltês, loġika.

            Todos esses vocábulos têm origem na palavra grega logos (transliteração de logov) que possui três acepções:

•        a de ser das coisas ou razão universal do mundo,

•        a de conceito ou pensamento,

•        a de voz externa ou expressão.

            Podem considerar-se com diversa perspectiva essas três acepções. Por um aspecto, o logos é, por primeiro, uma palavra exteriorizada, de que segue ser extensivamente um conceito, pensamento ou verbum mentis, que, por sua vez, exprime a realidade das coisas. Por outro aspecto, porém, a ordem dessas acepções tem a primazia do logos como razão ou lei universal do mundo, e só depois, sucessivamente, como potência anímica ou faculdade humana (ou seja, o intelecto) e, ao fim, a linguagem. É essa a melhor ordenação dos significados de logos, porque não leva à isolação do pensamento diante da realidade das coisas, senão que descende dessa realidade para nutrir e articular o pensamento.

            Essa última ordem −que pode remontar-se a Heráclito (c. 540 a.C.-c. 470 a.C.), para quem “todas as leis humanas se nutrem de uma só lei, que é divina”− é a que se expressa tanto no Antigo Testamento, no qual o Logov é a sabedoria divina que se encontra ao lado de Yahvé e assiste a inteira criação, quanto no Novo Testamento, em que o Logov é o próprio Deus, como se lê no Evangelho de S.João: “Ao princípio era o Verbo [ou seja, o Logov], e o Verbo era junto de Deus, e o Verbo era Deus. (…) Por Ele tudo foi feito”.

            Nada obstante o manifesto benefício de considerar a lógica a partir de sua relação com as coisas da realidade, isso não impede que se articule uma ciência e arte do pensamento, ainda que secundando o relacionamento do intelecto com a natureza das coisas. Assim, pode dizer-se que a lógica é, em sua origem, o estudo ou tratado do racional em relação com a realidade das coisas. Daí vêm as muitas palavras que, tendo por objeto o estudo de alguma fração dessa realidade das coisas, use alguma derivação do termo “logos”: p.ex., a biologia, que estuda os organismos vivos; a geologia, que tem por objeto o estudo da origem, da composição e da estrutura da Terra; a mineralogia, que estuda os minerais; a antropologia, que estuda os entes humanos; a teologia, que tem Deus por objeto de seu estudo.