É na vida em sociedade que os homens conhecem o necessário para sua vida singular, e, a tanto, possui o atributo de poder expressar e comunicar, por meio de palavras, pensamentos estruturados: “el hombre es un ser parlamentario por naturaleza” (Galán y Gutierrez).
Assim, o fato da linguagem é indicativo da natureza social e política dos homens, tornando possível sua convivência, porque, como disse Aristóteles (De interpretatione I,1), a linguagem expressa o pensamento humano e existe para fazer manifesto o bem e o mal, o justo e o injusto.
Mas tenhamos em conta o que ensinou o mesmo Aristóteles, no Livro I do Peri Hermeneias, acerca das palavras: as escritas, escreveu ele, são símbolos ou signos das palavras orais; e as palavras orais são signos das paixões ou afecções da alma que, por sua vez, são imagens das coisas do mundo (incluindo nós próprios). Assim, as palavras orais são signos das imagens das coisas na alma, de modo que, embora as palavras não exprimam as coisas diretamente, elas expressam as imagens dessas coisas; e essas imagens, por sua vez, são afecções da alma, e, indiretamente, exprimem as coisas da realidade.
Vejamos como Pinharanda Gomes −por lástima, nome pouco difundido no Brasil− traduziu o mencionado texto do Peri Hermeneias:
• “As palavras faladas são símbolos das afecções da alma, e as palavras escritas são símbolos das palavras faladas. E como a escrita não é igual em toda a parte, também as palavras faladas não as mesmas em toda a parte, ainda que as afecções da alma de que as palavras são signos primeiros, sejam idênticas, tal como são idênticas as coisas de que as afecções referidas são imagens” (Bkk. 16 a).
As afecções intelectuais da alma −é dizer, o que captamos intelectualmente da realidade− são a representação intelectual e abstrata da própria natureza das coisas: ao apreendermos, intelectualmente, as coisas da natureza (res naturæ) apreendemos, mentalmente, a natureza das coisas (rerum natura); o conteúdo de nossos conceitos é um quid, uma quididade, uma essência, um universal. Os conceitos mentais significam a essência mesma das coisas. Tal o disse Leonardo Van Acker: “Todo conceito, em si mesmo, é universal, embora nem todo conceito seja universal por função lógica”.
Categoremas, categorias e predicáveis
Categoremas (termos categoremáticos) são os termos que possuem uma significação determinada, termos que se dizem significativi porquanto significam um objeto que, por si só, é alguma coisa (p.ex., homem, animal, livro).
Sincategoremas (termos sincategoremáticos) são os que, não tendo significado determinado, recebem significação ao relacionar-se com outro signo; dizem-se consignificativi, (p.ex.: todo, algum, somente, nenhum). São termos que apenas modificam alguma coisa.
Os categoremas podem predicar-se, é dizer, atribuir-se como predicado a outro categorema, e isso pode ocorrer de cinco maneiras diversas, segundo a célebre classificação do Isagoge do neoplatônico Porfírio, obra que muito influenciou o pensamento medieval, graças a uma tradução de Boécio (cf. Tricot). Essas maneiras são os predicáveis (que se designam também “universais” e até mesmo “categoremas”): são eles gênero, diferença específica, espécie, próprio e acidente contingente.
Há outro modo de classificar os categoremas, que está em considerá-los enquanto predicamentos ou categorias, que são os modos de ser das coisas. Ao passo em que os predicáveis são os significados com que um conceito pode atribuir-se −ou predicar-se− a um sujeito, já agora as categorias ou predicamentos são os modos com que a ideia tem o papel de sujeito em um dado juízo.
Há vários sistemas de enunciação das categorias, assim o de Platão, o dos estoicos, o de Descartes, o de Kant, o de Leibniz, o de Renouvier, e o de Aristóteles, para quem as categorias são atributos gerais do ser, suas determinações reais, que, sem embargo de alguma variação ocasional de seu número, contam-se por Aristóteles em uma dezena:
• a substância (ens in se)
• e nove acidentes (entia in aliud): quantidade, qualidade, lugar, tempo, relação, ação, paixão, situação e hábito.
Tipos de abstração
O conceito tem caráter abstrato, ou seja, separa algum aspecto das coisas apreendidas; esse aspecto que os conceitos separam para si é o da essência, quididade ou natureza das coisas.
Abstrair é considerar um dado aspecto de algo, deixando à margem outros aspectos que, na realidade, estão unidos àquele (Sanguineti).
O conceito expressa a essência das coisas, deixando de lado seus dados sensíveis, sua individualidade, muitas de suas propriedades. Ora, a essência de uma coisa é aquilo que faz com que essa coisa seja o que ela é; e isso é forma da coisa, a forma sem a matéria dessa coisa, entendendo-se por “matéria” a potencialidade ou possibilidade de receber atualizações (cf. Domínguez Prieto).
A abstração, pois, separa a forma da matéria, isola a forma, e por sua vez, pode ser total ou formal.
Total é abstração que apreende a essência de um ente, sem excluir, contudo, as características da coisa apreendida, de tal modo que o dado individual está implicitado no conceito; p.ex., o conceito “prudente” implica o homem que tem a virtude da prudência). Isso corresponde, na gramática, aos substantivos concretos.
Já a abstração formal apreende a essência com plena independência de referi-la a um indivíduo; leva-nos às formas abstratas, o que corresponde, na gramática, aos substantivos abstratos: p.ex., bondade, santidade, sabedoria (Sanguineti).
A universalidade dos conceitos e a singularidade das coisas
Todo conceito é uma dada abstração, é dizer: apreende-se uma universalidade, mas esse conceito, apesar de ser universal, corresponde ou pode corresponder a vários indivíduos, concretos e singulares.
Por que o conceito “triângulo”, que é um universal, pode atribuir-se a todos os triângulos que, não de maneira universal mas singularmente, existem na realidade?
Está-se aqui diante de uma célebre questão, a questão geral dos universais, que pode dividir-se, assim o fez Casaubon, em três subquestões:
• existem os universais?
• os universais subsistem separadamente? e
• existem os singulares?
O que nosso conhecimento sensível capta e percepciona é o individual, o singular, e, no entanto, nosso entendimento apreende o universal. Tem-se aí, em uma indicação bastante simplificada, o problema dos universais, que mereceu diversas tentativas de solução, entre elas:
• a do nominalismo puro,
• a do conceptualismo subjetivista,
• a do realismo crítico exagerado e
• a do realismo moderado.
A mais adequada resposta à questão dos universais é a do realismo moderado, que, distinguindo, de um lado, a coisa, em si própria, e, de outro lado, o modo de sua existência, conclui que há, no entendimento, um conceito objetivo formalmente universal, e, nas coisas, uma natureza só fundamentalmente universal; ou seja, em palavras de José María de Alejandro: “/l/o que se predica del universal en el singular no es el modo, sino la naturaleza”, e do primeiro Jacques Maritain: “aquilo que nossas ideias nos apresentam sob um estado universal não existe fora do espírito sob esse estado de universalidade, [mas] existe fora do espírito sob um estado de individualidade”.
Célebre, a propósito, é a passagem de Joseph de Maistre, nas Considérations sur la France, na qual exatamente impugna que o universal se encontre em estado de universalidade nos entes singulares: “La constitution de 1795, tout comme ses aînées, est faite pour l'homme. Or, il n'y a point d'homme dans le monde. J'ai vu, dans ma vie, des Français, des Italiens, des Russes, etc.; je sais même, grâce à Montesquieu, qu'on peut être Persan: mais quant à l'homme, je déclare ne l'avoir rencontré de ma vie; s'il existe, c'est bien à mon insu”.
